Ex-Funai explica contexto de violência no Vale do Javari, onde jornalista e indigenistas desapareceram

Armando Soares trabalhou 38 anos na Amazônia, três deles no Vale do Javari, região onde o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Philips desapareceram

Ex-Funai explica contexto de violência no Vale do Javari, onde jornalista e indigenistas desapareceram
Foto: Reprodução / Youtube

Em entrevista à Rádio Metropole nesta segunda-feira (13), o indigenista e servidor aposentado da Funai, Armado Soares, 71 anos, contextualizou o cenário de violência no Vale do Javari, região onde o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Britânico Dom Philips desapareceram desde o último dia 05.

Armando lembrou que na época em que trabalhou no Vale do Javari o problema era o contrabando de peixe retirado ilegalmente da reserva indígena e contrabandeado para a Colômbia e Peru.

Atualmente, o tráfico de drogas está comprando o pescado para lavar o dinheiro oriundo da venda de drogas. Armando contou que Bruno Pereira estava atuando com os indígenas para fiscalizar a pesca ilegal na região e acredita que o indigenista pode ter sido assassinado por causa desse trabalho.

“O trabalho de Bruno estava quebrando essa rede. Acredito que isso (o desaparecimento) pode ter sido uma vingança, uma retaliação. Há um mês Bruno fez uma grande apreensão de pirarucu. É um peixe muito valioso na Colômbia e Peru”, explica Armando.

O indigenista diz que o Vale do Javari é a região do planeta onde existe a maior quantidade de índios isolados. “Os ribeirinhos sabem onde os isolados estão. O branco entra onde os isolados não estão. É uma área muito grande. Eu conheci índio isolado que tinha chumbo debaixo da pele depois de serem baleados após contato com o homem branco”, relata.

Problemas – Armando explica que o problema na região do desaparecimento e Bruno e Dom é a pesca e caça em território indígena, mas que em outra região do Vale do Javari também sofre como garimpo ilegal.

O servidor aposentado da Funai classificou como cruel a postura do governo Jair Bolsonaro de relaxar a fiscalização nos territórios indígenas. “É uma crueldade profunda porque dessa forma vários vários conflitos que aconteceram, mortes que aconteceram foram em decorrência disso. Lá no Vale do Javari teve um colaborador da Funai, em 2019, que foi assassinado no meio da rua, andando de moto com a esposa e a enteada, porque ele tinha participado de uma operação lá dentro da área”, relata.

Armando também lembrou dos cortes de recursos do governo federal que têm inviabilizado o trabalho da Funai. “O governo Bolsonaro cortou todos os recursos da Funai, que está impossibilitada de trabalhar e os indígenas estão abandonados à própria sorte. Quem está fazendo a fiscalização daquela terra lá são os indígenas. O Bruno estava ajudando os indígenas a fazer a fiscalização e a vigilância. É um absurdo. Isso é papel do estado. Eu trago uma revolta dentro do peito por causa disso”, desabafa.

O servidor aposentado da Funai gostaria de que Bruno e Dom fossem encontrados vivos, mas diz que é difícil devido ao contexto de violência da região. “Eu gostaria que eles fossem encontrados, apesar de todos os problemas, a grande violência em terreno ambiental, desse tempo todo deles desaparecidos, eu gostaria que eles fossem encontrados. Gostaria de conversar com meu amigo. Bruno é uma pessoa super atenciosa, pessoa humilde, dedicadíssimo, super trabalhador, a gente costumava dizer que ele é um gigante, um cara esforçadíssimo, um exemplo de pessoa. Eu gostaria que eles fossem encontrados, mas a gente sabe dos grandes problemas da região, da violência que impera por ali”, explica.

Crédito: Metro1

 

 

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